Ataque hacker e criptomoedas: por que boa parte do dinheiro levado no “roubo do século” pode ter se perdido para sempre

Especialistas consultados pelo Seu Dinheiro alertam: há uma boa chance de que a maior parte do dinheiro roubado nunca mais seja recuperada — e tudo por causa do lado obscuro dos ativos digitais O noticiário brasileiro desta semana virou um prato cheio para os aficionados por casos criminais. Em um roubo que entrou para a história, hackers acessaram o sistema de uma prestadora de serviços do sistema financeiro, rasparam em torno de R$ 1 bilhão de diversas contas, segundo estimativas, e fugiram diretamente para as sombras das criptomoedas. Um combo perfeito para uma história policial de prestígio. Apesar de gerar um interesse voraz para quem lê sobre o tema, a comoção do “roubo do século” é outra para as empresas atacadas, que tiveram prejuízos significativos com o assalto. A C&M Software, empresa situada no epicentro da ação criminosa, diz que “não confirma valores, pois não é agente financeiro nem parte na titularidade dos recursos”. Com isso, o verdadeiro tamanho do rombo causado pelo ataque hacker ainda permanece um mistério. Entretanto, especialistas alertam: há uma boa probabilidade de que a maior parte desse dinheiro nunca mais seja recuperada — e tudo por causa do lado obscuro dos ativos digitais, que emergem como um refúgio para os criminosos esconderem os rastros de seus roubos. Ataque hacker: onde foi parar o dinheiro? Parte do dinheiro roubado pelos hackers foi recuperada, incluindo cerca de R$ 180 milhões da BMP.  Essa recuperação ocorreu por meio do MED (Mecanismo Especial de Devolução), um protocolo previsto pelo Banco Central no Pix para devolução de valores em casos de fraude.  Outra ferramenta também auxiliou na recuperação enquanto as operações de Pix dos clientes da C&M estavam desligadas temporariamente: o Sistema de Transferência de Reservas (STR) interbancário do Banco Central, utilizado para a realização de transferência de fundos entre instituições financeiras. Além disso, uma conta com R$ 270 milhões, usada para receber o dinheiro desviado, já foi bloqueada pelas autoridades locais. Mas a leitura inicial de especialistas consultados pelo Seu Dinheiro indica que apenas as cifras que permaneceram nas contas financeiras dos criminosos puderam ser devolvidas. Isso porque, até cair nas contas, o dinheiro estava sendo rastreado. Mas, como os fraudadores também tinham conhecimento sobre o mecanismo de devolução do Pix, eles tiram o dinheiro das contas muito rapidamente — e logo converteram boa parte do montante em criptomoedas. Um levantamento obtido pelo Crypto Times mostra um aumento desproporcional no volume negociado em corretoras de criptomoedas (exchanges) no dia do ataque hacker, em plataformas como a Binance, Bity, Bitso, Mercado Bitcoin (MB) e Foxbit. O maior aumento no volume negociado ocorreu na Binance, que saltou mais de R$ 430 milhões. Em um único dia, o volume negociado na corretora foi três vezes maior do que a média mensal. Em alguns casos, houve um aumento de mais de 700% em volume negociado em apenas um dia. Dinheiro roubado no assalto virou criptomoeda. E agora? Até a última quinta-feira (3), a Polícia Civil estava totalmente concentrada em identificar e prender o suspeito insider na C&M, que ajudou os hackers a acessarem os sistemas. Foi só a partir da sexta-feira que os esforços mudaram para construção de uma força-tarefa para congelamento e rastreio dos ativos suspeitos. Na leitura de Marcos Zanini, especialista em cibersegurança e CEO da Dinamo Networks, porém, o dinheiro roubado que foi transformado em criptomoeda pode ter se perdido para sempre. Isso porque as transações com criptomoedas possuem chaves de acesso únicas. No entanto, elas não permitem acesso aos dados de quem detém a carteira (wallet). Ou seja, ainda que seja possível rastrear que o dinheiro roubado foi convertido na criptomoeda A, B ou C e alocado em uma determinada wallet, não é possível recuperar este montante, uma vez que as redes cripto não possuem um dono ou controlador. “Como a chave não é nominal, você perde totalmente a rastreabilidade. Por isso, dificilmente o que virou cripto vai voltar. Depois que virou criptomoeda, eu acredito que não recupera mais esse dinheiro roubado”, afirmou Zanini. “Essa é coisa linda e, ao mesmo tempo, horrível, das criptomoedas. Vamos supor que você tenha medo de o governo confiscar seu dinheiro, a criptomoeda é uma coisa que salva, porque ninguém, nem mesmo o governo, tem autonomia de sacar. Mas é a mesma coisa quando o fraudador faz isso: ninguém tem a condição de pegar o dinheiro dele”, acrescentou. Na mesma linha, Valter Rebelo, analista da Empiricus Research, afirma que, uma vez que os hackers distribuíram esses R$ 1 bilhão entre bitcoin e USDT, “não tem o que fazer”.  “Porque o criminoso nem precisa transferir o dinheiro para eventualmente se liquidar dele e lavar esse dinheiro. O mercado sabe onde estão esses bitcoins, mas não há como recuperar. A blockchain opera como se fosse uma rede de caixas de correio, só que os detentores possuem as próprias chaves”, disse Rebelo. Ataque hacker e dinheiro em criptomoedas: a responsabilidade fica com as exchanges de criptomoedas? Se o dinheiro roubado caiu em uma corretora (exchange) de criptomoedas, essa exchange não estaria responsável por bloquear transações ilícitas? Em teoria, sim.  Porém, como o Banco Central não tem autoridade para regular corretoras que não sejam sediadas no Brasil, acaba em um limbo regulatório, segundo o CEO da Dinamo. Vale destacar que, há algumas semanas, a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que plataformas que realizam transações com criptomoedas têm responsabilidade e podem ser obrigadas a reparar danos causados por fraudes em operações protegidas por senha e autenticação de dois fatores.  No entendimento do STJ, nem mesmo ataques de hackers tirariam a responsabilidade das plataformas, a menos que fosse, de fato, comprovada a culpa exclusiva do cliente ou de terceiros. Porém, ainda não se sabe como isso será aplicado na prática. “Se isso tivesse acontecido em uma rede permissionada, como o Drex, seria 100% reversível, porque todas as operações dentro de uma blockchain permissionada estão sob o controle do Banco Central. Se esse dinheiro tivesse sido pulverizado em 10 mil contas, daria para rastrear exatamente para quais contas entrou. Quando você vai com uma blockchain pública, como são as criptomoedas, elas não tem alguém dono, então não há rastreabilidade”, afirmou Zanini. Uma carteira de autocustódia, Truther, elevou os

Mercado financeiro reduz previsão da inflação para 5,2%

Estimativa para o PIB é de 2,21% este ano A previsão do mercado financeiro para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – considerado a inflação oficial do país – passou de 5,24% para 5,20% este ano. A estimativa está no Boletim Focus desta segunda-feira (30), pesquisa divulgada semanalmente pelo Banco Central (BC), em Brasília, com a expectativa de instituições financeiras para os principais indicadores econômicos. Para 2026, a projeção da inflação permaneceu em 4,5%. Para 2027 e 2028, as previsões são de 4% e 3,83%, respectivamente. A estimativa para 2025 está acima do teto da meta de inflação que deve ser perseguida pelo BC. Definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), a meta é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Ou seja, o limite inferior é 1,5% e o superior 4,5%. Em maio, a inflação oficial fechou em 0,26%, pressionada principalmente pelo aumento da energia elétrica residencial. O resultado mostra desaceleração após o IPCA ter marcado 0,43% em abril. O índice – divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – acumula taxas de 2,75% no ano e de 5,32% em 12 meses. Juros básicos Para alcançar a meta de inflação, o Banco Central usa como principal instrumento a taxa básica de juros, a Selic, definida em 15% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Apesar do recuo recente da inflação, as incertezas em relação à economia fizeram o colegiado elevar os juros em 0,25 ponto percentual na última reunião, neste mês, sendo o sétimo aumento seguido da Selic em um ciclo de contração na política monetária. Em ata, o Copom informou que deverá manter os juros no mesmo patamar nas próximas reuniões, enquanto observa os efeitos do ciclo de alta da Selic sobre a economia. No entanto, não descartou mais aumentos, caso a inflação suba. A decisão surpreendeu parte do mercado financeiro, que não esperava um novo aumento e, nesse cenário, a estimativa dos analistas é que a taxa básica encerre 2025 em 15% ao ano. Para o fim de 2026, a expectativa é de que a taxa básica caia para 12,5% ao ano. Para 2027 e 2028, a previsão é que ela seja reduzida novamente, para 10,5% ao ano e 10% ao ano, respectivamente. Quando o Copom aumenta a taxa básica de juros a finalidade é conter a demanda aquecida, e isso causa reflexos nos preços porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança. Mas, além da Selic, os bancos consideram outros fatores na hora de definir os juros cobrados dos consumidores, como risco de inadimplência, lucro e despesas administrativas. Assim, taxas mais altas também podem dificultar a expansão da economia. Quando a taxa Selic é reduzida a tendência é que o crédito fique mais barato, com incentivo à produção e ao consumo, reduzindo o controle sobre a inflação e estimulando a atividade econômica. PIB e câmbio A estimativa das instituições financeiras para o crescimento da economia brasileira este ano se manteve em 2,21% nesta edição do Boletim Focus. Para 2026, a projeção para o Produto Interno Bruto (PIB – a soma dos bens e serviços produzidos no país) subiu de 1,85% para 1,87%. Para 2027 e 2028, o mercado financeiro estima expansão do PIB em 2%, para os dois anos. Puxada pela agropecuária, no primeiro trimestre de 2025, a economia brasileira cresceu 1,4%, de acordo com o IBGE. Em 2024, o PIB fechou com alta de 3,4%. O resultado representa o quarto ano seguido de crescimento, sendo a maior expansão desde 2021 quando o PIB alcançou 4,8%. A previsão da cotação do dólar está em R$ 5,70 para o fim deste ano. No fim de 2026, estima-se que a moeda norte-americana fique em R$ 5,79. Fonte: Agência Brasil